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2005 July
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| Pt. IX |
| 07.20.05 (3:52 pm) [edit] |
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Há dois anos atrás aqui era o rio. Passeava. Demorava-me na humidade da noite. Sentava-me a ouvir o matraquear das sampanas ocultas nas sombras nocturnas. Agora vejo o constante desaguar dos veículos que atravessam a nova ponte que liga Macau à Taipa e a noite parece-me mais desassossegada. Ainda assim, sabe bem descer até à rua e absorver as luzes e os feixes amarelados de Macau. Sente-se o rio no ar. Os carros e autocarros soluçam e rosnam ao passarem, mas no silêncio do intervalo das suas ausências as águas do rio murmuram arrastadas pelo lento ir e vir da maré. É como se o tempo aqui não fizesse sentido. Nem corpo nem espírito estranham a presença da cidade. Aqui não existe o Mundo. Existe uma cidadezinha insignificante aninhada na foz do delta das Pérolas. O Mundo passa e a cidade fica. Contrai-se com cada inspiração e expande-se com cada expiração.
Afinal as sampanas ainda ali andam, poucas, três ou quatro, quietas nas sombras azuis do rio. São meras manchas que se distinguem pelo piscar do pequeno pirilampo vermelho de sinalização. A aproximação do tufão fez descer sobre a cidade uma finíssima neblina que se pega aos feixes de luz dos candeeiros e que preguiça nas torrentes de luz da cidade ao fundo. Por detrás de mim, a lua é um balão inchado de um pálido amarelo entre as torres altas dos prédios, envolta nesta mesma película cinzenta e difusa. O céu por cima da ponte velha incendeia-se de laranja e roxo, por detrás das nuvens, como se alguém ali estivesse a tentar acender um isqueiro. De vez em quando, é o branco do flash de uma máquina japonesa que se acende no largo do céu. Ou são lâmpadas de fumo e luz que se apagam e acendem repetidamente. Não há trovão. Só relâmpago. Esta trovoada silenciosa traz no ar o cheiro a palha seca e a pó de cimento. As palavras vagarosas demoram-se assim no meu pensamento. Param para contemplar a noite. Respiram. E passam.
& nbsp; &n bsp; Há dois anos atrás, aqui era o rio.
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| Pt. VIII |
| 07.09.05 (8:46 am) [edit] |
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Quatro das cinco grandes cozinhas do mundo estão representadas em Macau. Portuguesa, Chinesa, Tailandesa, Indiana. Falta apenas a cozinha árabe. Parece que os sábados estão reservados para os paladares exóticos. Na semana passada foram iguarias tailandesas. Arroz de ananás servido dentro do fruto. Sopa de marisco absurdamente picante. Vegetais, peixe. Transpiro sempre quando como as especialidades tailandesas. A comida é tão picante que, a certo ponto, deixa de picar. Hoje jantei no buffet do restaurante Indian Garden. Lá dentro, recriaram o ambiente de um jardim interior. O tecto falso imita o colmo de uma cabana. Nas paredes há canas plásticas a imitar o bamboo. Existem árvores e plantas espalhadas por todo o resturante, entre as mesas, em canteiros, e uma dúzia de estatuetas de divindades indianas sentam-se nas sombras da ramagem. Bebe-se cerveja KingFisher, uma indiana. A comida é uma orgia de sabores, desde o suavemente picante, passando pelo doce, e muito picante. Caril, chicken masala, bróculos condimentados com especiarias, arroz de sabores exóticos, e outras dezenas de pratos à escolha. Estas iguarias são certamente afrodisíacas, como este álbum dos Midival Punditz, e eu sinto o sangue a ferver nas veias umas poucas horas depois do jantar.
Também deve ter contribuído para este vigoroso afluxo sanguíneo a foot massage que se seguiu. A loja do foot massage tem todo o aspecto de uma sala de estar velha e empobrecida. Cá fora um enorme letreiro em forma de pé luminoso indica o ramo de actividade. Sentamo-nos num sofa e fico com os pés de molho num alguidar com chá quente. A velha matrona telefona às massagistas para virem até à loja. Funciona um pouco como um part-time, possivelmente. Ela ri-se para o Martins, um riso de quem sabe vender o seu peixe, como se riam provavelmente as primeiras chinesas antigas que comercializaram com os primeiros Gwai Los. Terá quarenta anos? Cinquenta? Sessenta? Não o sei dizer. É impossível precisar a idade de uma mulher chinesa. A humidade poupa-lhes o peso da idade na pele. A velha matrona usa um bálsamo para me massajar a planta dos pés. Com os nós nos dedos, trabalha-me o nervo que percorre os pés de uma ponta à outra, e que dói de noites obscuras em que o inconsciente se agitou de pesadelos e tormentas inomináveis. De quando em quando, solta uma risada. Si Fu. Ela sabe do ofício. Vai-me trabalhando os dedos dos pés, os nervos, os músculos. Sobe para a perna. Massaja e dá pantadas secas nos gémeos. Depois, puxa e pressiona os quadríceps, como se os estivesse a tentar remover do lugar para de seguida melhor os arrumar. É meia hora para o membro inferior esquerdo e outra meia hora para o membro inferior direito. No fim, parece que me retiraram enormes pesos de chumbo das pernas. O andar sai solto e os pés quase que flutuam sobre o solo.
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| Pt. VII |
| 07.09.05 (8:03 am) [edit] |
Pareço um louco. De máquina digital na mão, disparo uma foto. Clic. Mal acabo de verificar como esta ficou, no LCD da câmara, e já estou a visualisar outra fotografia. Clic. Snap. Tenho a cabeça a fervilhar com palavras e o instinto aguçado por uma cidade e uma realidade que conheço bem. É como percorrer o corpo de uma mulher com os dedos, sentir-lhe a pele quente e o ardor sexual. Faço amor com a cidade. Sinto-lhe o calor e a vibração. Instintivamente selecciono imagens. Becos, bicicletas, fachadas. Cantos escuros, caixas de ar condicionado. Letreiros luminosos. Torres de habitação. Ruas, travessas, páteos, autocarros, pequenos altares escondidos à altura de um passeio. Redescubro e reaprendo a cidade nas fotografias. Descubro que a cidade é brutalmente fotogénica. É doce e selvagem. Calma ou felina. Num mesmo dia, experimento um ror de emoçðes. Tensão. Calma. Frustração. Bem estar. Agora estou feliz. Sente-se o cheiro térreo da humidade no ar. O lusco fusco desce devagarinho sobre a cidade e eu redescubro o conforto da beira rio. Os motores das sampanas ronronam e matraqueiam nas águas castanhas do rio, sob nuvens carmins e na penumbra vagarosa que se aproxima. Sinto-me preenchido e em paz.
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| O Fim do Mundo |
| 07.09.05 (7:35 am) [edit] |
O velho Martins é um personagem sui generis. Ainda me lembro, quando o conheci há dez anos atrás, de lhe achar graça à expressão “é o fim do mundo!” De vez em quando, por necessidade, até lhe saía em inglês, “it’s the end of the word.” Natural de uma aldeia desterrada nas Beiras, disse uma vez que o que o salvou foi a tropa. Se não fosse a tropa ainda hoje estava lá na aldeia a comer mulheres de buço e bigode. Quando era novo, o pai bebia e ordenava também que ele bebesse um batido de vinho tinto e gema de ovos logo pela manhã. Dava força na na verga. A guerra levou-o para o Ultramar e foi lá que se fez homem. Era capitão numa companhia de pretos. Comprou uma míuda de dezasseis anos, Maria Luísa, para ser a sua concubina, por três mil pesos. Quando souberam disto no comando, chamaram-no e disseram-lhe que aquilo não podia ser, que ele tinha que trazer a míuda para o comando. Para que os outros jagunços não a comessem, ele levou a pretinha de volta para a sanzala. Mais tarde, quando estava na cama com outra, ou outra vez com Maria Luísa, bateu-lhe à porta uma viga de um soldado preto, amante da míuda, que o derrubou com um soco. Finda a guerra, o velho M. chegou a Portugal e percebeu que ali não tinha futuro. Foi para os Estados Unidos, mas não aguentou muito tempo por lá. Acabou em Macau. Passou mais ou menos, passou mal, e agora amealhou uma pequena fortuna em negócios lucrativos. O medo de voar faz com que pouco ou nada saia do território de Macau. Tem por hábito dizer mal dos portugueses. País de cobardes. As portugas, são umas cabronas, andam à procura de alguém que as coma. Se vem à conversa alguma nacionalidade, tem por hábito dizer mal. Vigaristas. Ladrðes. Nharros. Jagunços. Cabrðes. É o fim do mundo. Este tipo de postura, sem papas na língua, sem vergonha do que diz, criou-lhe muitas inimizades na Macau colonial, naquela comunidade portuguesa mesquinha, que gostava de coscuvilhar e denegrir a imagem de uns e de todos. Mas o velho Martins, no fundo, não deixa de ser um homem simples. O aldeão das Beiras que Macau acolheu e em quem África deixou paixão e nostalgia.
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| Pt. VI |
| 07.08.05 (10:54 pm) [edit] |
São duas horas de um sábado à tarde. No restaurante Canal dos Patos, um pavilhão chinês no jardim Sun Yat-Sen, estamos sentados à mesa o velho M., um seu velho amigo chinês, o meu pai e eu. O velho português e o chinês são amigos antigos e embebedam-se um ao outro com bom vinho português. Falam de futuros investimentos em Angola. O velho português e o meu pai são ambos veteranos do Ultramar e aguçam o apetite ao chinês, descrevendo as potencialidades do território angolano e a beleza do país. O chinês é um dos homens mais ricos de Macau. Há muito dinheiro a ganhar em África. Na travessa, ficou abandonada uma última sardinha assada. Eu olho lá para fora, o olhar perdido algures entre o lago de nenúfares e a ponte chinesa com as suas sete curvas, as torres habitacionais que se erguem enormes como muralhas ao fundo, por cima dos muros do parque, e o céu cinzento, a ameaçar mais uma vigorosa chuvada tropical. Estou sedento de palavras. Persigo-as no labirinto da minha mente, com medo de esquecer ou de as perder. É uma batalha fútil. A imaginação é impaciente e não sabe esperar. Ela não escolhe momentos e é mais veloz que a mão que segura a caneta ou que o dedo que se apressa sobre a tecla. O velho M. recorda como o chinês lhe deu a mão, há vinte anos atrás, quando ele andou quatro meses sem emprego. Mesmo quando o M. já tinha montado a sua própria empresa, e não podia continuar a ir trabalhar todos os dias para o outro, o chinês continuou a pagar-lhe o ordenado. Os chineses são assim, de amizades difíceis de conquistar, mas, a partir daí, invariavelmente leais.
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| Pt. V |
| 07.01.05 (5:42 am) [edit] |
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– De que sanzala é que você é?
O velho Martins, pronunciado à inglesa, metia-se assim com a preta que estava a servir no restaurante. Os velhos do ultramar são assim, dizem mal dos pretos, mas aquela terra selvagem e primitiva marcou-os muito. Fez os rapazes em homens. O Martins diz que prefere o Quimbo à Sanzala. É mais pequeno, só uma família, ficava lá ele a cobrir e as outras mulheres a trabalhar. O Martins é assim, de declarações politicamente incorrectas.
Empilhámos mais de três centenas de processos para deitar fora. Mesmo com todos os ares condicionados ligados, transpirava abundantemente, as roupas a colarem-se-me ao corpo. Pernas. Costas. Abdómen. Durante a pausa para o almoço caiu uma chuvada tropical, daquelas de gotas pesadas e furiosas, que ensopam a roupa e lavam a alma. Os chineses do Tai Loc (continente), esperaram debaixo do toldo conosco e olhavam-me, Gwai Lo (demónio estrangeiro), com curiosidade.
Depois de um jantar de arroz de marisco à bruta e um jarro de vinho cinco estrelas, vamos andar no calor da noite. Here we go. O Martins mete-se com um guarda Filipino. This fucking guy! O velho Martins é assim, mete-se com toda a gente. O seu passatempo favorito é dizer mal dos portugueses. O seu passatempo favorito é dizer mal dos macaenses. Olha para aquelas macaenses a beber cerveja, têm o cú podre e estão ali a beber cerveja. O seu passatempo favorito é dizer mal dos mestiços. O seu passatempo favorito é dizer mal dos indianos. O seu passatempo favorito é dizer mal dos portugueses das colónias. O seu passatempo favorito é dizer mal dos chineses. Enfim, o seu tempo favorito é dizer mal de todos e, no fundo, não dizer mal de ninguém. Estes são velhos sobreviventes. Ele e o meu pai estiveram ambos em hospitais no Ultramar, com queimaduras corporais muito graves.
À tarde mais processos para acartar. E duas secretárias. E um programa informático para pensar. E mais processos. No gabinete do Dr. Zao, decorado com emblemas e lembranças do golfe, deparo-me com um caos de papéis, recibos, processos, notificações, enfim, um caos jurídico. Um bom advogado não é aquel que percebe mais direito. É aquele que encontra mais depressa a folha, a notificação, o processo, o papel, na barafunda do seu gabinete.
Entramos no carro, depois de deixar o velho Martins no seu Mercedes SLK 200. O meu conta-me a história do médico chinês que jantou conosco na outra noite. O David tem um consultório e os seitosos exigiram-lhe um percentagem dos rendimentos. Quando ele recusou, os seitosos esfaquearam-lhe o braço, tentando impedir que ele exercesse mais a sua especialidade de médico dos ossos. É estranho que as manisfestações visíveis das seitas tenha diminuido. O jogo tem vindo sempre a aumentar. Nos primeiros seis meses de 2005, as receitas já antingiram 450 milhðes de contos, mas milhão menos milhão. Os chineses gostam tanto de jogar que uma das alíneas do regulamento de ginásio é: gambling is not permited inside.
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| Pt. IV |
| 06.28.05 (11:28 pm) [edit] |
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E ao quarto dia o meu primeiro contacto com as ruas da cidade de Macau, as que contam verdadeiramente, os becos, as travessas e os pátios. Os meus olhos cansados pelo jet jag ainda não conseguem enxergar bem a cor e o movimento da cidade. Dei comigo à procura de palavras que pudessem descrever o carácter das numerosíssimas lojas e bancas, com o seu carnaval de cores e letreiros que se atropelam uns aos outros, suspensos nas fachadas dos edifícios. Caracteres chineses e palavras portuguesas indicam os vários nomes e variedades de comércio. Estabelecimentos de comida. Saunas. Sapatarias. Barbearias e cabeleireiros, com o cilindro listado de vermelho e azul a girar à porta. Observo um nome sui generis: Chan Kon Kei Casa de Pasto. É assim, a especificidade desta terra. O comércio em Macau é fulgurante e cheio de vitalidade. Em cada recanto, uma surpresa. O planeamento irregular da cidade e a arquitectura das torres criam pequenos nichos e labirintos por toda a cidade. Às vezes observamos, num destes nichos, um altar vermelho com incenso aceso às divindades chinesas. Outras vezes, dois velhos chineses a jogarem dominó chinês ou um velho sozinho, sentado, indolente, como se os séculos não tivessem passado pela cidade. Os passeios, os pátios, os becos e as travessas estão repletos de motas aceleras estacionadas em longas filas. É uma infinidade delas. Deve haver mais motas que carros. Os carros não param nas passadeiras para que os peões possam atravessar, e tenho que apressar o passo mais do que uma vez, pois sou apanhado distraído na minha deambulação ensonada. As ruas são quase sempre estreitas, apertadas entre os gigantes de cimento e betão, com as suas janelas e varandas gradeadas, caixas de ar-condicionado espalhadas aleatoreamente. Estes gigantes erguem-se maciços por toda a cidade, à altura de mais de vinte andares. Os edifícios assemelham-se a gaiolas de vários feitios. O ladrão chinês é hábil e desce pelos agueiros nas paredes externas dos arranha-céus para assaltar os apartamentos. De vez em quando, à porta de um casino, vejo um carro-forte a recolher os lucros do jogo, guardado por homens que empunham uma shotgun. Um ou outro manhoso chinês, de palito na boca, olha de soslaio para esta operação. Sonha, talvez, em assaltar um destes carros-forte um dia destes. O jogo tem destas coisas. Atrái um tipo de criminalidade diferente. E à volta dos casinos mais antigos existem mais casas de penhores do que a maioria das pessoas alguma vez irá ver na vida. As montras refulgem como bandejas de prata que reflectem luz solar. Exibem relógios e jóias de ouro branco que custam milhares de euros a peça. A humidade começa a incomodar e vou almoçar à Caravela. Chocos à algarvio. Batata cozida, salada. Se não fosse a mercearia chinesa do outro lado da travessa, diria que estava em Portugal. Enquanto como, imagino como se transformava este restaurante num bar à maneira. Retirava as mesas e as cadeiras. A decoração já tem a classe e o toque certos. Punha um hip hop chill-outzinho e era ver as damas a dançar e o pessoal a pilhar. Na explanada concentravam-se os bezanos todos, em conversas absurdas e inúteis, animados pela imperial. São essas as conversas que valem a pena. Chega uma empregada nova ao restaurante. Sorri para mim. Retribuo o cumprimento e reparo como ela é bonita. Tem a pele morena e os olhos rasgados, assentes nas maças do rosto salientes, e as sobrancelhas finas realçam-lhe a testa exótica. Talvez seja uma mestiça malaia. Vem-me ao ouvido uma música de Mos Def e de Talib Kweli. Brown skin lady. Where’re you going? Brown skin lady. Whatcha you doing? Os seus lábios pequeninos e apertados gostam de sorrir. E eu gosto de olhar para ela. A clientela do restaurante é maioritariamente portuguesa. Alguns portugueses antigos, da Macau antiga, do tempo dos bailes na casa do governador e dos cigarros preguiçosos de fins de tarde coloniais. A cidade honra a herança portuguesa. Andam a calcetar as ruas de calçada portuguesa e a colocar candeeiros portugueses antigos. Mas é o último fulgor de uma supernova. The deep breath before the plunge. É o fim da linha para uma geração e para uma forma de se ser português. A caminho da Taipa, as carrinha dos Jardins Oceano leva-me a mim e a mais quatro filipinas. Em Macau, as filipinas preenchem o mercado das empregadas domésticas. Esta carrinha, que serve também os condóminos, transporta-as gratuitamente até aos edíficios Cherry, Syringe e Kapot. Ao atravessarmos a ponte, aperta-me uma nostalgia no peito. Queria poder parar o tempo e ficar assim para sempre. Com uma cidade que me assombra e me preenche. It stings. O meu fantasma habita as ruas de Macau, desprovido do corpo que eu agora ocupo.
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| Pt. III |
| 06.28.05 (11:26 pm) [edit] |
Não corria qualquer brisa no ar quente da noite azul. O largo Eduardo Lourenço, na aldeia de Coloane, tem calçada portuguesa e três edifícios pintados de um amarelo colonial. Debaixo das arcadas, do lado esquerdo e do lado direito, existem dois restaurantes. Ao fundo uma igreja. Sentámo-nos no Nga Tim Café. É uma espécie de híbrido entre uma mercearia transmontana e uma tasca chinesa. Sentado na mesa, ao ar livre, nas arcadas, não pude evitar reparar que esta cena tinha qualquer coisa de santos populares. Um ambiente colorido. Flores. Enfeites e balões de papel chineses. Os candeeiros, suspensos na armação do toldo, eram feitos de abajours artesanais – cestos de plástico para papéis. No largo, uma menina chinesa brincava com estalitos de pólvora. Dois chineses, em calções e chinelos, fumavam um cigarro pachorrento, sentados nos degraus da igreja. A língua cantonesa ecoava por toda a minha volta. Também a comida era um cruzamento de sabores da culinária portuguesa com um toque oriental. Veio a água de coco dentro do fruto. Depois, veio uma sopa de marisco com camarão e bivalves de várias espécies à qual eu adicionei picante e então me fez lembrar uma sopa picante que eu comi nas bancas de rua em Banguecoque. O pombo assado veio com a cabeça do animal na travessa. Os chineses querem ver o animal inteiro na mesa. Uma questão de saberem o que estão a comer. Sabia-me um pouco a pato chinês, um ligeiro travo doce, mas com a textura do frango. O arroz chao-chao tinha um paladar exótico e tropical, e o camarão tigre frito com alho, bem, sabia a camarão tigre frito com alho, que é o que se quer. Ao percorrer a marginal tranquila, a China do outro lado, sentia-se a humidade no olfacto. Do lado esquerdo, algumas casas chinesas com as portas abertas. Extremamente desprovidas de recheio. Os chineses não dão a mesma importância que os portugueses dão às suas casas. Numa curva, obervei ao fundo a Torre de Macau e a ponte nova ( apelidada humuristicamente de ponte McDonald’s por ter dois arcos que fazem lembrar o M daquela cadeia americana de fast-food). Ambas vertiam luz branca no azul escuro da noite.
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| Pt. II |
| 06.28.05 (4:24 pm) [edit] |
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& nbsp; &n bsp; Mal saí do aeroporto recebi o abraço quente e húmido da cidade. Era a própria essência desta terra que me tocava, por toda a minha pele, num abraço sentido de saudade. E a terra dizia, tenho saudades tuas. Eu também tenho saudades tuas. No autocarro A11 as montanhas aguçadas e verdes estimulavam-me a memória. Era ali, isto é, aqui e agora, que a minha identidade de português faz absoluto sentido. Porque eles, os chineses e a sua cultura, são suficientemente diferentes para eu validar a individualidade da minha própria cultura. Tenho saudades tuas. Do teu cheiro acre, a suor, incenso e humidade. Os Novos Territórios surgiram naquela vista magnífica da baía, onde o prateado e o vidros espelhados dos altos arranha-céus constrastam com o verde intenso da selva de vegetação nas montanhas à sua volta; e os céus prateados de nuvens servem de contraponto às águas verde-marinho. Esta cidade tem a silhueta mais bonita do mundo. O Jet Foil mudou de nome para Turbo Jet. A empresa ainda pertence ao Stanley Ho. O barco principiou lentamente, como é norma na baía de Hong Kong, por causa do grande tráfego marítimo que ali se realiza. Parecem formigas, as embarcações, de todas as formas e feitios, ancoradas ou em movimento, a realizar um infinidade de tarefas. Um mundo à parte. É a outra Hong Kong, marítima. Para azar meu, ainda não tinhamos saído por completo da baía, quando o barco avariou. Regressamos ao cais de Victoria e trocámos o Madeira pelo Lilau. Recordei-me daquele episódio em que, à boa maneira pirata, uns bandidos chineses desviaram um Jet Foil que transportava dinheiro do jogo. Bêbado de sono, ainda sou surpreendido por um jogo de luz, à saída da baía. O sol brilha intenso a oeste, e as nuvens nesta zona parecem de algodão branco, de primavera. Mas a leste o céu está mais de inverno. As nuvens estão cinzentas de chuva. O ponto onde estes dois céus se tocam produz um efeito de rara beleza. Pelo caminho e para pena minha, não consigo observar a estátua gigante do Buda, no topo de uma das montanhas da ilha de Lantao. O céu formou um manto que veste os picos mais altos da ilha. Ao chegar a Macau, reparo imediatamente no enorme casino novo, o Macau Sands. Mas isso já é pano para outras mangas, ou seja, pão para outras crónicas.
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| Pt I. |
| 06.28.05 (12:07 pm) [edit] |
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Ia perdendo a minha mala de CDs no aeroporto de Heathrow. Depois de todo o trabalho que tinha tido a gravar CD atrás de CD, seria trágico passar dois meses em Macau sem som nenhum. Afinal, este verão requer uma banda sonora variada. Mal cheguei a este aeroporto de Londres, deparei-me logo com uma cena típica nos chineses. Os ingleses tinham montado um esquema para ordenar as filas em direcção às máquinas de raio-x com umas fitas verdes que nos faziam serpentear o caminho até ao local de controle da bagagem de mão. Claro que os chineses principiaram logo a seguir em frente, uns passando por debaixo dos cordões, outros desprendendo dos postes as tais fitas verdes, encurtando assim o caminho. Depois, antes de embarcar, outra cena que me indicava que estava, de facto, a caminho da Ásia. Na zona do portão de embarque do meu voo, estavam ínumeros chineses agarrados aos telemóveis. Uma chinesa à minha frente esteve na mesma chamada durante pelo menos vinte minutos, e ainda ia colada à mesma chamada já na mangueira de acesso ao avião.
& nbsp; &n bsp; Como eu abomino estes aviões. Ou abomino, pelo menos, a classe económica. Os voos para Hong Kong vão sempre cheios. Ainda por cima, este vai cheio de portugueses. Já não chega aturá-los em Portugal? Irei estar aqui encavalitado, neste lugar apertadinho, durante as próximas doze ou treze horas. Isto assim não vai correr bem. Nem sequer há gajas boas.
& nbsp; &n bsp;
& nbsp; &n bsp; - What are you looking at?
& nbsp; &n bsp; - Nothing… Pretending that I can read Chinese.
& nbsp; &n bsp; O passageiro do lado ri-se sozinho com a revista chinesa que está a ler. Para me entreter, ponho-me a olhar para os caracteres chineses e finjo que os sei decifrar. Fingo que consigo perceber que tipo de revista é, mas a única coisa que entendo são as fotografias das modelos chinesas. Atrás de mim oiço falar português. Ao meu lado esquerdo, português do Brasil. Imagino que aqui o companheiro chinoca me perguntava para onde é que eu estava a olhar. E eu respondia com a verdade, que não estava a olhar para nada, estava apenas a fingir que entendia chinês. Rio-me quando penso que, se ficasse bêbado, não poderia dizer vitupérios em português. Aliás, ficaria linguisticamente amputado, porque não teria a muleta de uma língua que mais ninguém entendesse. O inglês, obviamente, estaria completamente fora de questão. O monitor instalado nas costas do assento da frente indica que faltam onze horas para o destino. Onze horas! E ainda nem sequer descolámos.
& nbsp; &n bsp; - What are you looking at?
& nbsp; &n bsp; O chinês, naquele jeito cantante e desengonçado que eles têm ao falarem em inglês:
& nbsp; &n bsp; - Nothing. Just pretending I can read Portuguese.
& nbsp; &n bsp; Uma das hospedeiras é mesmo boa. Passou agora por mim com um tabuleiro com sumos e águas. Já estou a imaginá-la a convidar-me para pertencer ao Mile High Club. Na casa de banho minúscula. Ou no quarto de descanso da tripulação, na traseira da aeronave, do qual eu vi o interior de relance. Interrogo-me se é verdade o que o Rafid disse sobre as hospedeiras, que era só um passageiro mais atrevido meter conversa. Bem, ele é piloto de aviões comerciais, afinal de contas. Só é pena que esta hospedeira esteja a usar calças em vez de saia. As hospedeiras deviam usar sempre saia. Faz com que os passageiros vão mais confortáveis. Foda-se! O comandante acabou de anunciar que ainda vamos ficar parados na pista mais quase uma hora devido a “engineering problems”. É engraçado como as empresas de transporte têm sempre estes nomes vagos e ambíguos para justificarem os atrasos. As peças necessárias estão num armazém a trinta minutos de distâcia do aeroporto. Engineering problems. Isto não augura nada de bom.
& nbsp; &n bsp; Confundir autor e personagem; afinal de contas, eu sou um personagem e a realidade é a ficção da minha vida. Esta guitarra de Fu Manchu, com muito “crunch”, é mesmo old-school. Vejo, num dos canais do sistema de entretenimento individual do avião, um documentário sobre um leoa em África que adoptou uma cria de antílope. Inexplicavelmente, os seus instintos maternais suplantaram os instintos do predador, e a leoa seguiu, guardou, e acarinhou a cria de antílope durante quase quinze dias. Já estavam os dois animais quase a morrer de fome, pois a leoa não caçava para estar com a cria, e esta ainda era demasiado jovem para digirir ervas e plantas com que tentava enganar a fome, quando um leão surgiu do nada e matou e comeu a cria de antílope. Penso que foi em 1995 que primeiro cheguei à Ásia. Ainda me lembro dessa viagem. Das montanhas verdes de Hong Kong, como me marcaram na descida do avião para o antigo aeroporto de Kai Tac. Faz agora dez anos.
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